Crise hídrica em Minas: onde era água, agora é pasto

Assim como acontece no Alto Paranaíba, no Triângulo mineiro a situação também é crítica com relação ao nível do reservatório que abastece a usina hidrelétrica. Em Emborcação, como em Nova Ponte, são registrados os piores índices de água da história. Com a água muito baixa, a geração de energia está pouco acima da capacidade instalada.

E é pra lá que a gente vai hoje pra contar quais são os prejuízos já contabilizados na região, para além da geração de energia elétrica.

A repórter Alessandra Mendes rodou mais de 2 mil quilômetros em 4 regiões diferentes de Minas para fazer um raio-x da crise hidroenergética e seus impactos.

Onde era água, agora é pasto. São quilômetros e mais quilômetros dentro da área do reservatório da Usina Hidrelétrica de Emborcação

É preciso ir um trecho de carro e depois seguir à pé, passando por diversas réguas, numa sequência quase interminável, até chegar onde a água está hoje: 624 metros acima do nível do mar. Bem abaixo do nível máximo do reservatório, de 661 metros. E bem perto do nível mínimo operacional, de 615 metros.

Isso significa que, baixando mais 9 metros, a usina chega em um nível que não é mais possível gerar energia elétrica. E a projeção atual, levando em conta a vasão atual, aponta que isso deve ocorrer em pouco mais de dois meses.

Hoje, a geração já está bem abaixo da capacidade instalada, até para poupar a água. A unidade de Emborcação tem condição de gerar 1197 megawatts/hora, mas trabalha hoje com 57% dessa capacidade.

IMPACTO

O cenário, nada positivo, principalmente no que se refere à estiagem e suas consequências, preocupa o prefeito de Araguari, onde fica a Usina de Emborcação. Renato Carvalho diz que acompanha os desdobramentos da crise e os impactos para a economia local, mas que as medidas agora são apenas paliativas.

“Nós temos como carro chefe, junto com o tomate, o café. Nossa região é muito conhecida pela produção de café de extrema qualidade. E também, junto a isso, a soja. Temos quase 30 mil hectares de cultivo de soja. E uma característica que nossa região tem é ser multifacetária nas diversas culturas do hortifrutigranjeiro. Temos o pequeno produtor que produz jiló, produz chuchu, todos que precisam de muita água. Então, a preocupação é enorme. E a gente percebeu o seguinte: estamos passando por uma crise das piores em 10 anos. E quando a gente pega o mapa do Brasil onde ela vai ser mais severa, o Triângulo mineiro está no miolo. Isso nos deixa bastante preocupado. Há dois meses eu comecei a fazer algumas reuniões. A gente percebe que nesse momento são só medidas paliativas. Tudo que envolve recurso hídrico envolveria um planejamento bem anterior”.

SAFRA MENOR

Café é uma preocupação local que se estende para outras regiões do Estado. Assim como no Triângulo, no Alto Paranaíba, por onde passamos para chegar até Araguari, a situação também é crítica. Como o último período chuvoso já foi ruim, a planta floresceu menos. Pra piorar, o frio nesse ano trouxe uma geada que prejudicou ainda mais a safra. Geada e estiagem vão gerar uma safra até 40% menor do café para o ano que vem. É o que explica o cafeicultor e presidente da AUA, Associação dos Usuários das Águas da Região de Monte Carmelo, Acácio José Dianin.

“Considero que este último ano agrícola de agosto, pela má distribuição das chuvas, uma futura perene é muito prejudicada, porque ela tem que crescer durante o ano todo, e nós tivemos um período chuvoso mais curto e ela cresceu menos, ela formou menos folha, menos ramos. Então, teremos uma menor produtividade por hectare e produção menor a nível Brasil. Se falando de cafeicultura, tivemos ainda uma outra ocorrência que foram as geadas. Então, as geadas somada a seca, acreditamos que que vai ajudar de 30 a 40% a safra do café estimada para 2022”.

Como a estiagem ainda está longe do fim, os cafeicultores e outros produtores rurais já começaram a fazer racionamento da água usada na produção. Todo ano é feito um rodízio da água no período seco, mas esse ano, segundo Acácio Dianin, a medida começou bem antes da hora.  “Tivemos que iniciar o racionamento cerca de 30 a 40 dias antes da média dos últimos anos. Ou seja, a partir de 1° de agosto, em alguns trechos de córregos, nós já tivemos que iniciar racionamento ou revezamento, que é quando a gente faz a gestão hídrica para diminuir o consumo de água, a captação. Para poder garantir um mínimo de vazão e garantir a vida daquele córrego”.

Cafezal atingido pela estiagem em Monte Carmelo

RACIONAMENTO NA CIDADE

Se o racionamento já é realidade no campo, na cidade ele ainda é um temor para mais adiante. Pelo menos no que se refere ao abastecimento da cidade, o prefeito de Araguari está otimista por causa de caraterísticas específicas do município, mas não descarta medidas de restrição.

“Para o nosso consumo local e regional está controlado. EM Araguari vamos suportar. Sem solução de continuidade. Pelo que estamos vivendo por agora, não quero adiantar uma resposta assertiva. Pode ser que a gente adote um racionamento no futuro sim”.

RISCOS FUTUROS

Mas, mesmo o uso urbano da água, depende do que vem pela frente. Caso a chuva não venha logo, e em volumes significativos, o problema que hoje afeta municípios no entorno de reservatórios, que vivem em função da água dos lagos represados, vai chegar para todos. Segundo o vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Araguari, Antônio Geraldo de Oliveira, a crise hídrica desse ano pode ser pior do que nos anos anteriores.

“Se essa chuva não chega rápido pra gente é claro que isso vai piorar. Hoje, ainda dá para atender a atividade econômica e a população. Mas, se demorar muito, acredito que vai ser pior do que as outras. Ano passado choveu muito pouco. É provável que afete ainda mais no futuro se não chover”.

Antônio Geraldo de Oliveira

OFICIAL

Em 1º de junho deste ano, a ANA, Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, declarou a situação crítica de escassez dos recursos hídricos na Região Hidrográfica do Paraná, que compreende, entre outras, as bacias dos Rios Paranaíba e Araguari. Esta declaração é consequência da sequência de anos com chuvas abaixo da média na região.

Pelo acompanhamento da ANA, a seca ficou mais forte em 15 estados de junho para julho deste ano, incluindo Minas Gerais.

E a gente segue o rastro desses impactos da estiagem em cidades banhadas por reservatórios aqui no Estado. Amanhã, vamos para a pontinha do Triângulo, na divisa com Goiás, entender como está a situação da água e energia também por lá.

, em Araguari, no Triângulo mineiro, tomados pelo mato e invadidos pelo gado. Até mesmo encontrar a régua de marcação do nível da água dentro do reservatório virou tarefa difícil.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*